Nem todo mundo começa da mesma linha de largada
- há 2 dias
- 2 min de leitura

A vida não é igual para todos. E quanto mais cedo a gente percebe, e principalmente aceita essa realidade, menos se frustra tentando encontrar justiça onde, muitas vezes, ela nunca existiu e nunca vai existir!
Já se pegou olhando para quem está muito à frente e sentiu estar atrasado? Eu costumo pensar bastante nisso e acabo esquecendo que o esforço precisou ser o dobro ou o triplo para chegar até aqui. Não escrevo isso para me lamentar. Escrevo porque fingir que todos partem do mesmo lugar e que o sol nasce pra todos, são umas das maiores mentiras que contamos como sociedade.
Tem gente que nasce em um terreno onde crescer é quase natural. Outros precisam romper um solo seco só para ter uma única chance. No fim, quem olha apenas para a árvore dificilmente imagina o tipo de solo em que ela precisou criar raízes. Com as pessoas acontece a mesma coisa: a gente compara resultados, mas quase nunca compara os pontos de partida.
Não importa o quanto você estude, se esforce ou trabalhe. Para algumas pessoas, o caminho sempre será mais curto. Às vezes porque nasceram cercadas de oportunidades que outras jamais tiveram. Às vezes porque carregam um sobrenome que abre portas antes mesmo de baterem nelas. Às vezes porque a aparência pesa mais do que o currículo. A meritocracia possa até existir, ou ser uma falácia, não sei, mas, de fato, ela nunca começa da mesma linha de largada.
E o problema não é alguém estar na frente. O problema é quando essa pessoa transforma privilégio em discurso de superação. Quando diz que "basta querer", que "todo mundo consegue", que "é só correr atrás que vai ser recompensado". Não. Nem todo mundo começa a corrida no mesmo ponto e muitos sequer vão cruzar a linha de chegada. Você pode ter chegado, talvez tenha tido esse privilégio herdado.
Você talvez nunca tenha precisado escolher entre pagar a passagem de ônibus ou comprar um lanche para passar o dia. Talvez nunca tenha trabalhado desde os 13 anos para, depois de um ano inteiro economizando, comprar um celular simples de botão. Talvez nunca tenha esperado completar 18 anos para comer o primeiro hambúrguer em um shopping, que, inclusive, tenha sido sua primeira ida a um. Talvez nunca tenha tido roupa nova apenas no Ano-Novo. Talvez as viagens internacionais sejam uma rotina pra você.
Talvez você nunca tenha pensado em desistir da faculdade porque não tinha onde morar. Nunca tenha acordado antes das cinco da manhã, passado horas no transporte público, chegado em casa depois das dez da noite e ainda encontrado uma casa inteira para organizar antes de dormir e trabalhos para finalizar.
E, ainda assim, essa realidade está longe de ser a mais dura que existe. Há milhões de histórias muito mais difíceis do que essa. É por isso que o sentimento não é de inveja. É de injustiça.
Porque oportunidades deveriam ser mais bem distribuídas. Porque talento existe em todos os lugares, mas oportunidade não. Porque esforço não apaga desigualdade. E porque, enquanto continuarmos tratando privilégios como mérito puro, seguiremos culpando quem ficou para trás por uma corrida que nunca começou de forma justa.
A vida nunca foi igual para todos. O mínimo que podemos fazer é parar de fingir que foi.




Comentários