Leonardo Reis: a arte de contar histórias e de permanecer nelas
- 10 de abr.
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Atualizado: 14 de abr.
Amigo, jornalista e apaixonado pela cultura popular, Léo deixa um legado de palavras, afetos e memórias que se recusam a partir.

Somos seres finitos. Mas, quando penso nisso, imagino a vida acontecendo ao lado dos amigos até os 70, 80 anos… como se o tempo fosse generoso o suficiente para caber tudo. Não foi assim. Nem sempre é assim. Perdi um amigo aos meus 27 anos. Ele, com 28. E, diante de uma perda tão precoce, fica uma pergunta difícil de ignorar: o que nos resta fazer com o tempo que ainda temos uns com os outros?
Leonardo Reis era um curioso nada óbvio. Fascinado por cultura, pelo interior, pelas raízes. Encantado por gente, qualquer tipo de gente e aí estava uma de suas maiores contribuições: enxergar o outro com curiosidade, respeito e interesse genuíno, algo cada vez mais raro e necessário nos dias de hoje. Fazia amizade com facilidade, como quem já os conhecesse há anos. Incentivador de boas conversas, da cultura popular, da produção audiovisual, da escrita criativa. Um horizontino de fala afiada, dono de um deboche peculiar e de palavras que, mesmo ácidas, nunca deixaram de ser inteligentes.
Leonardo estudou Agronegócio, Zootecnia, Jornalismo, Espanhol e Português. Era inquieto. Não cabia a ideia de acomodação. Buscava, o tempo inteiro, aprender sobre tudo e, principalmente, sobre todos. Na escrita, encontrou um lugar especial. Escrevia de forma simples e direta, alcançando diferentes públicos e transformando a comunicação em ponte entre pessoas, vivências e realidades.
Gostava de contar histórias. De falar do interior, do passado, de honrar memórias, retratos e tradições. E fez isso com tanto talento que foi reconhecido ainda na universidade, acumulando muitos prêmios e construindo, desde cedo, um caminho invejável.
Entre os reconhecimentos, foi vencedor do Prêmio Gandhi de Comunicação em 2019, 2020 e 2021, uma conquista que dialoga diretamente com a forma como enxergava o mundo: pela escuta, pelo respeito e pela valorização das histórias humanas. Também conquistou o Expocom Nordeste em 2021, na modalidade Laboratório de TV, e em 2022, nas categorias Vinheta e Comunicação & Inovação, além do Expocom Nacional 2022, nas mesmas categorias. Mas nenhum prêmio traduz completamente quem ele era, de fato: único.
Antônio Leonardo de Sousa Reis nasceu em 3 de outubro de 1997, é o mais novo de quatro irmãos. Cursou o ensino médio na EEEP Maria Dolores Alcântara e Silva, com formação técnica em Agronegócio. Iniciou Zootecnia na Universidade Federal do Ceará, mas foi no Jornalismo que encontrou aquilo que só acontece poucas vezes na vida: o encontro de alma. Entrou no curso alguns meses após o início da turma de 2018. Foi o último a chegar, veio como suplente. E, curiosamente, foi ali que tudo começou: nossa amizade.
Nos encontramos e nunca mais nos desgrudamos. Vieram os projetos, as disciplinas, os trabalhos, as viagens. A rotina virou parceria. E a parceria virou uma daquelas amizades que ocupam um lugar profundo na vida da gente.
Há amizades que guardam versões nossas. Segredos, rotinas, risadas. E uma das partes mais difíceis é aceitar a impermanência de alguém. Entender que aquela pessoa não vai mais estar nos próximos momentos, nos planos simples, nos encontros adiados. O luto chega como uma presença difícil, que vai e volta, mas que também ensina sobre o valor de cada instante compartilhado.
Nunca gostei e nem concordo com a frase “há males que vêm para o bem”. Dor é dor. Ainda assim, existe a possibilidade de transformá-la em presença, em cuidado, em palavras que alcancem outros. No meu caso, ela me trouxe de volta à escrita. Por muito tempo, deixei de lado as escritas íntimas. A correria, as demandas, a vida acontecendo rápido demais. Desde a sua partida, no dia 6 de abril de 2026, voltei ao que mais gostávamos de fazer juntos: contar histórias.
E, como prometido, não vou deixar você ser esquecido. Vou te honrar através da escrita. E isso exige tempo, paciência… e lágrimas. Porque escrever sobre você é revisitar tudo o que vivemos e tudo o que ainda poderíamos viver.
Eu não consegui ir ao hospital nos seus últimos dias. Nunca te vi acamado, naquela condição. Não foi por falta de vontade. Pensei nisso todos os dias. Considerei cada possibilidade, tentei muito com sua família, mas, claro, a prioridade eram os de sangue. Hoje, entendo que cada um vive o adeus à sua maneira. Você sempre foi alegria. Sorriso. Presença leve. E é assim que escolho te guardar na memória: vivo.
Como no nosso TCC, a memória é cíclica, efêmera e passageira. Um loop de sentimentos que sempre encontra um caminho de volta. E você vai voltar, nas lembranças, nas risadas e nas histórias que ainda serão contadas.
O mundo anda rápido demais, mas eu paro aqui, agora, pra te dizer: você foi uma das pessoas mais bonitas, grandiosas e simples que tive o privilégio de encontrar. Obrigada por tudo. De todo o meu coração, eu sempre vou ser sua fã número um.
Falar do Léo é, também, um jeito de lembrar que não deixar o outro ser esquecido é um ato de amor. Escrever sobre quem já foi é, de alguma forma, mantê-lo presente. E respondendo a pergunta que fiz lá no início, em um mundo agitado, escolher olhar para o outro com atenção, respeito e humanidade é extremamente necessário. O tempo não costuma avisar quando está prestes a levar alguém. No fim, são os encontros vividos e não os adiados que permanecem.
No fundo, é sobre isso. E é por isso que esse texto também não é só sobre ele. É esse gesto de olhar com mais presença, de valorizar o que é simples, de não deixar que histórias se percam. Afinal, é assim que a gente permanece: uns nos outros.
Por isso, deixo aqui, para quem está lendo, alguns de seus projetos e trabalhos, para que mais pessoas possam conhecer, ainda que um pouco, o talento e a sensibilidade de um profissional que marcou por onde passou.
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